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"Vejo a falta de tecnologia nos países em desenvolvimento não como um problema, mas como uma oportunidade para construirmos as abordagens mais modernas e darmos um salto à frente de países desenvolvidos."

Nandan Nilekani, empreendedor e co-fundandor da Infosys, uma gigante mundial de tecnologia, responsável pelo maior projeto de recadastramento digital de pessoas físicas no planeta.

São Paulo - SET 2020

A pandemia foi implacável com as seis famílias que moram nas seis pequenas casas registradas no número 15 da Rua do Platô, na favela do Córrego do Eucalipto, bairro da Nova Descoberta, em Recife (PE). Entre elas, a família de Bruno e Anaize. Ele, entregador de aplicativo para os restaurantes locais; ela, atendente em um pequeno mercado da comunidade. Em questão de poucos dias, os restaurantes que Bruno atendia fecharam, e o mercado avisou Anaize que só poderá pagar R$ 200 de salário enquanto o mundo não voltar ao “normal”. A fome bateu à porta do casal, e o pesadelo começou.

Assim como todos os outros moradores do endereço, Bruno e Anaize correram para tentar receber o Auxílio Emergencial de R$ 600 aprovado pelo Congresso e anunciado pelo governo federal. Com dificuldades para preencher a papelada, os dois pediram ajuda a uma colega de trabalho de Bruno. No dia 7 de março, a inscrição foi feita na Caixa Econômica Federal.

Após duas semanas de espera, ambos receberam a mesma negativa. Idêntica má sorte tiveram os moradores de outras quatro casas do número 15 da rua do Platô. Apenas os vizinhos da casa grudada à de Bruno e Anaize conseguiram a aprovação no cadastro nacional.

O casal não desistiu. Refez a inscrição no dia 22 de março. Mas, em 7 de maio, após um mês de longa agonia, veio uma segunda reprovação.

Por que os vizinhos da casa ao lado, que vivem em condições precárias parecidas com as deles, receberam o auxílio, enquanto todas as outras cinco famílias que coabitam o endereço, e entram e saem todos os dias pelo mesmo portão, não conseguiram?

A resposta é tão simples quanto cruel: o sistema só aceita dois CPFs por endereço. Ou seja, o sistema (ou “O Sistema”) ignora que, nas favelas e periferias do Brasil, existem milhões de famílias que dividem o mesmo portão, mas não a mesma casa e, muito menos, relações familiares.

Nossa não-digitalização e nossa ineficiência na gestão dos dados públicos estão cobrando uma conta salgada nesta pandemia. O mesmo cadastro que não enxergou Anaize e Bruno e lhes negou o urgente benefício é o mesmo cadastro que indevidamente pagou o auxílio a mais de 73 mil militares.

Quem me chamou atenção para a saga de Anaize e Bruno, e para mais esse disparate, foi um grande parceiro na distribuição de doações de itens de primeira necessidade, higiene e cestas básicas nas favelas de Nova Iguaçu (RJ). A história iluminada de Hamilton, o 17o de 22 irmãos criados pela dona Eliete e hoje dono de uma empresa que faz e entrega refeições saudáveis e orgânicas em 27 favelas, eu conto em outra oportunidade.

O alerta de Hamilton me inspirou a procurar para uma entrevista o indiano Nandan Nilekani, o responsável pelo maior projeto de transformação digital da história e pelo maior programa de transferência de renda do mundo. Como presidente da Autoridade Única de Identificação da Índia (Aadhaar), ele implantou o sistema que registrou digitalmente mais de 1,2 bilhão de cidadãos em menos de uma década —o equivalente a um Brasil a cada dois anos.

Para ter uma ideia, durante esta pandemia, graças ao Aadhaar, o governo da Índia foi capaz de repassar recursos emergenciais para mais de 150 milhões de pessoas em menos de uma semana. Sem filas, sem burocracia, sem expor a população a riscos de contágio desnecessários.

Co-fundandor da Infosys, uma das gigantes mundiais de tecnologia, Nilekani é integrante do seleto grupo de bilionários que doaram em vida a maior parte de seu patrimônio para a Giving Pledge — movimento de filantropia liderado por Warren Buffet, Melinda e Bill Gates.

Nesta conversa, ele detalha como foi a revolução digital da Índia e explica por que seria menos complicado (ou, como ele prefere, “mais simples”) replicá-la hoje no Brasil. Uma frase que sintetiza sua vitalidade e otimismo: “Vejo a falta de tecnologia nos países em desenvolvimento não como um problema, mas como uma oportunidade para construirmos as abordagens mais modernas e darmos um salto à frente de países desenvolvidos”.

LH – Como está a situação na Índia nesta pandemia? O governo está conseguindo manter uma coordenação em todos os níveis de governança do país, governo central, estados e cidades?

NN – Cerca de 15 anos atrás tivemos um tsunami avassalador, após o qual o governo aprovou uma Lei de Gerenciamento de Desastres e implementou uma estratégia específica. Ou seja, havia um sistema e uma estrutura burocrática que foram realmente úteis para lidar com a pandemia. A Índia soube agir muito rapidamente e estabeleceu o lockdown já na última semana de março. Esse bloqueio definitivamente ajudou a diminuir o ritmo da pandemia e a nos dar tempo para nos prepararmos melhor, com um aumento de testes, recursos de rastreamento, leitos hospitalares e assim por diante.

LH – O que me motivou a provocar esta conversa foi nosso encontro no Fórum Econômico Mundial, em janeiro. Eu já sabia do enorme impacto de eficiência e bem-estar social do projeto que você liderou sobre identidades digitais na Índia. E, depois de te ouvir, fiquei bastante seguro de que sua experiência e visão de mundo serão muito úteis para os debates no Brasil. A pandemia acentuou o contraste das desigualdades por aqui. Aconselhamos as pessoas a lavarem as mãos e a não saírem às ruas como uma das maneiras mais eficazes de combater o vírus da Covid-19, mas 30 milhões dos 200 milhões de brasileiros nem sequer têm acesso regular à água tratada. Metade da população não tem saneamento básico em casa. A Covid nos colhe no momento em que governos pelo mundo estão rapidamente se tornando plataformas tecnológicas. Eu acredito que o futuro depende essencialmente da tecnologia por uma razão simples: a vida humana já está acontecendo através dela. Um governo desconectado perde, portanto, a capacidade de governar. Você foi a cabeça central e chefe da implantação do Aadhaar na Índia, uma plataforma digital que revolucionou a forma de governar o país. Você pode explicar como nasceu a ideia original e como se deu o processo de implementação?

NN – Em 2009, o então primeiro-ministro me convidou para ingressar no governo com o desafio de fornecer uma identificação única a todos os indianos, cerca de 1,3 bilhão de pessoas. Cinco anos depois, quando saí, 600 milhões de habitantes já tinham sido cadastrados. Hoje, todos no país possuem uma identificação digital única. Esse foi o maior programa de identificação do mundo e foi feito em um país onde as pessoas não têm documentos, não têm certidão de nascimento, não têm casa, não têm endereço… Uma situação muito complicada, muito parecida com a que você tem no Brasil. Esse sistema digital tornou-se também a base do maior programa de transferência de renda do mundo. Toda essa tecnologia foi muito útil na pandemia, porque o governo lançou muitas iniciativas para injetar dinheiro diretamente na conta das pessoas pobres. E eles puderam fazer isso agora graças à infraestrutura criada nos últimos dez anos.

LH – Acredito que muitos problemas seculares que temos no Brasil só serão solucionados via tecnologia de ponta. Posto isso, gostaria de entender como foi na Índia o processo de organização desses dados e a construção desta eficiente plataforma digital?

NN – Antes de tudo, Luciano, não queríamos que este fosse um sistema muito pesado. Então criamos um sistema minimalista e muito leve. Para se inscrever, uma pessoa precisava apenas de alguns dados: nome, endereço, data de nascimento, sexo e biometria (fotografia, impressões digitais e íris). Opcionalmente ela poderia fornecer seu número de celular e endereço de e-mail. As informações são muito simples, e a inscrição pôde ser feita em 15 minutos. Sendo assim, uma pessoa pôde se inscrever rapidamente a qualquer hora, em qualquer lugar. No pico, o sistema registrou um milhão e meio de pessoas por dia em 35 diferentes escritórios espalhados pelo país, inclusive no Himalaia e na floresta. Tudo era muito simples, mas, ao mesmo tempo, exigiu muita sofisticação. Utilizando os dados de biometria, procuramos duplicatas para impedir que alguém se inscrevesse duas vezes com um nome diferente. Essa busca por duplicatas requer uma tecnologia de ponta e um desafio de solução de computador extremamente complexo. Ninguém havia feito isso em nenhum momento do mundo antes. Ninguém havia feito um armazenamento de instância única de 1 bilhão de pessoas. O maior projeto até a época era de cerca de 100 milhões de pessoas. Construímos essa tecnologia do zero, usando integralmente linguagens e códigos abertos e uma equipe que reuniu lideranças do sistema público e da iniciativa privada. Como ninguém tinha feito isso antes, tivemos que atravessar muitos territórios desconhecidos. A boa notícia é que todos os problemas de tecnologia foram resolvidos. E, dez anos depois, estamos usando uma tecnologia ainda melhor. Qualquer país que deseje fazer isso não encontrará problemas em relação a tecnologia. O desafio será gerenciar a política dele.

LH – De acordo com o Banco Mundial, hoje mais de um bilhão de pessoas no planeta não têm cédula de identidade. E, embora não haja dados sobre o Brasil, tenho certeza de que um contingente relevante da população do país não possui uma identidade funcional, o que aumenta a dificuldade de se avaliar e modelar o serviço público.

No Brasil, paradoxalmente, ocorre o fenômeno da multiplicação de registros de identidade. Temos o RG, emitido pelos estados. O CPF, emitido pela Receita Federal. O título de eleitor, emitido pelo Tribunal Superior Eleitoral. A carteira de motorista, emitida pelos estados. O certificado de reservista, emitido pelo governo federal. A carteira de trabalho, também emitida pelo governo federal. As carteiras de entidades profissionais, emitidas pelas associações de classe.

Tal modelo leva a distorções inaceitáveis. Já houve o caso de um indivíduo que foi pego com com 47 títulos eleitorais, 43 carteiras de identidade, 2 carteiras de trabalho e 2 certificados de reservista.

E, se o meio digital é a solução para essa questão, a forma como está sendo implantado no Brasil é equivocada. O mesmo fenômeno da multiplicação das identidades do meio físico se dá no plano digital. O Brasil já tem a CNH digital, emitida pelos estados. O DNI, emitido pelo governo federal. A Carteira de Trabalho Digital. O Título de Eleitor Digital. E o e-CPF, emitido por empresas privadas homologadas pelo ITI (Instituto de Tecnologia da Informação). Cada um desempenhando um papel distinto. E nenhum reunindo as capacidades de eliminação da burocracia e transformação dos serviços públicos em escala nacional.

A prova disso é que a adesão à CNH Digital, por exemplo, não passa de 0,4%. Em outras palavras, o cidadão não vê utilidade nenhuma nessa digitalização.

É nesse contexto que surge a oportunidade de – seguindo o exemplo de outros países como a Índia, discutir, planejar e finalmente mostrar capacidade de execução para implementar uma única identidade nacional digital, soberana e certificada. Como vocês na Índia venceram as forças cartoriais, sindicais, políticas, setoriais etc. que ganham muito com a confusão de dados e profusão de ineficiências?

NN – A Índia era bem parecida. As pessoas tinham muitos registros de identidade diferentes. Nós não quisemos mexer diretamente nisso. Decidimos comunicar que iríamos implantar apenas uma Identidade Digital, para garantir que John é John ou que Luciano é Luciano. Mas, se Luciano poderia votar ou não, isso continuaria sendo decidido pela autoridade eleitoral. Se Luciano deveria ou não pagar impostos, isso seguiria sendo decidido pelo Fisco. Não entramos, portanto, em nenhuma batalha por território. Apenas desenvolvemos e adotamos uma única Identidade Digital, a ID. O que aconteceu é que essa única ID Exclusiva passou a ser usada e de duplicada pelos outros órgãos. Por exemplo, a autoridade fiscal puxou a ID Exclusiva para garantir que alguém tenha apenas uma ID de imposto. O sistema de passaporte usa a ID para garantir que você tenha apenas um passaporte. E assim por diante. Então, fizemos a ID por trás das outras IDs, cujo objetivo fundamental era garantir apenas uma identificação digital única por pessoa.

Importante colocar que, quando eu comecei a desenhar o projeto, todo mundo me perguntava: “Por que mais uma identificação?”. Então, explicamos a necessidade de unificar o sistema de identificação em uma ID. John, por exemplo, teria apenas uma ID. Mas, como não queríamos interferir com outras identificações, dissemos que era para ser usada em segundo plano para evitar duplicações no banco de dados. E você continua tendo o número do seu passaporte e o número da carteira de motorista etc. Portanto, não houve problemas. A questão foi como posicionar e comunicar a nova ID no sistema do país.

LH – Atualmente no Brasil, devido a pandemia, o governo está tentando aos trancos e barrancos transferir R$ 600 para cerca de 80 milhões de brasileiros. Mas a burocracia, a falta de planejamento, a falta de capacidade de execução e a confusão nos dados criaram filas desumanas no banco público, a Caixa Econômica Federal, responsável pela distribuição dos recursos emergenciais. Milhões de pessoas passam dias e noites inteiros em filas correndo risco de estarem expostas ao vírus. Enquanto isso, na Índia, o governo conseguiu transferir em poucos dias recursos para mais de 100 milhões de famílias necessitadas. Sem nenhuma fila, sem nenhuma confusão. Como funcionou esse processo?

NN – Temos algo chamado Ponte de Pagamento Aadhaar, que vincula sua Identidade Digital Exclusiva à sua conta bancária. E aproximadamente 690 milhões de indianos têm uma ID vinculada a pelo menos uma conta bancária. Sendo assim, o governo pode transferir dinheiro diretamente para a conta bancária de seus cidadãos usando a ID. Portanto, entre 100 e 200 milhões de pessoas na Índia receberam dinheiro diretamente em sua conta bancária sem nenhum contato físico. Além disso, há correspondentes bancários em cada vila do país. Cada um deles tem um pequeno dispositivo que chamamos de micro ATM, que é um smartphone com um leitor biométrico. Se, por exemplo, eu tiver algum dinheiro na minha conta bancária, posso ir até o correspondente bancário, fornecer o meu número Aadhaar, que é meu número de ID, e, com a autenticação biométrica, retirar o dinheiro da minha conta bancária. Digamos que eu faça o saque de 500 rúpias, então o correspondente bancário zelará para que as 500 rúpias sejam devidamente debitadas da minha conta bancária. Temos algumas centenas de milhares desses correspondentes distribuídos por todas as vilas do país, para que as pessoas não precisem ir a um banco ou caixa eletrônico. Esse sistema, apenas em abril passado, realizou cerca de 403 milhões de transações para 147 milhões de indianos.

LH – Indo além da pandemia, o Aadhaar também foi um grande aliado no combate a corrupção, problema que enfrentamos há séculos no Brasil. Com o sistema de identidade digital indiano, houve uma enorme inclusão de cidadãos no sistema bancário, o que possibilitou ao Banco Central Indiano remover todas as notas maiores de 20 dólares de circulação. Imagina isso no Brasil? Para roubar R$ 50 milhões em dinheiro vivo, um político corrupto precisaria não de um apartamento, mas de um estádio para esconder todas as cédulas de baixo valor.

NN – Com o sistema Aadhaar, o dinheiro flui diretamente para a conta bancária. Não há fraudes ou duplicatas. A remessa vai apenas para uma pessoa e somente ela pode sacar o dinheiro de sua conta através de um correspondente bancário. Tudo é eletrônico de ponta a ponta, e a pessoa pode sacar seu dinheiro em qualquer lugar do país. É um sistema muito elegante para distribuir dinheiro para milhões de pessoas e tem sido muito bem-sucedido.

LH – Você começou a construir o Aadhaar em 2009. De lá para cá a tecnologia mudou e evoluiu muito. Se você estivesse iniciando esse projeto agora, em um país como o Brasil, o que faria de diferente?

NN – Quando começamos em 2009, os smartphones ainda eram muito novos. O iPhone chegou em 2007 e o Android em 2008. Ao longo da última década, os telefones se tornaram cada vez mais capazes e mais baratos. A segunda coisa é que, em 2009, não tínhamos tanta conectividade de dados. Quando alguém se registrava, essas informações tinham que ser enviadas ao sistema central e só lá o número seria gerado. Isso podia levar alguns dias. Hoje, bastaria inscrever os dados de uma pessoa, e instantaneamente o sistema geraria sua ID Exclusiva. Além disso, naquela época não podíamos fazer autenticação de face porque a inteligência artificial não estava tão desenvolvida. Agora, podemos fazer a autenticação de face. Você apenas olha para a câmera e fornece seu número, e o sistema verificará e informará que você é de fato a pessoa a quem pertence aquela ID. Então, implementar isso hoje seria ainda mais simples, porque muitas das vantagens tecnológicas surgiram nos últimos 10 anos.

LH – Neste momento, estamos discutindo no Brasil apenas “quando” vamos retomar a economia. Eu entendo que também deveríamos estar discutindo “como” será a vida daqui para frente. Apesar do enorme sofrimento das milhares de famílias que perderam e ainda vão perder alguém querido para este coronavírus, da depressão econômica que parece se formar e dos impactos sociais e emocionais que a quarentena está impondo às pessoas, eu acredito que temos a chance de aprender algo com tudo isso, de apontar caminhos para diferentes problemas, de encontrar uma nova narrativa para a sociedade e o governo, de buscar um governo mais eficiente e afetivo, mais fraterno e solidário. Nunca estivemos tão interconectados.
Posto isso, a cultura de doação no Brasil é uma bandeira que eu venho erguendo há muito tempo. O Brasil doa uma média de 0,2% do PIB, cerca de R$ 2 bilhões por ano, incluindo as igrejas pentecostais. Só nas últimas 8 semanas, a sociedade civil brasileira doou mais de R$ 3 bilhões, sem incluir as igrejas. Dada a ineficiência do governo federal, a filantropia tem sido muito importante para apoiar as famílias que mais precisam. A fome havia chegado às favelas antes do coronavírus —e bem antes da ajuda emergencial do governo. Agora a situação está ainda mais crítica, porque o contágio está enorme nas comunidades menos assistidas. Sairemos dessa pandemia como sociedades mais fraternas e solidárias?

NN – Com certeza. Essa é uma crise rara, onde todos nós estamos no mesmo barco. Você está trancado em sua casa em algum lugar do Brasil, eu estou aqui trancado em minha casa em Bangalore, e muitos no planeta estão assim. Então, de certa forma, enquanto estamos presos em nossas casas, todos compartilhamos a mesma crise. Isso ajuda a nos unir. Como no Brasil, na Índia também houve um grande aumento filantrópico. Mais e mais pessoas estão tentando fazer as coisas pelo outro. E, de certo modo, se um vírus pode fazer isso, podemos imaginar o que acontecerá no futuro com as mudanças climáticas. O vírus está preparando o mundo para reconhecer que, se não cuidarmos de coisas como saúde pública e mudanças climáticas, todo o planeta estará em perigo. E nos tornou mais conscientes do fato de que é um problema que afeta a todos nós.

LH – Há pouco tempo foi perguntado ao Dalai Lama que, se ele tivesse de sussurrar no ouvido de um jovem um único conselho, qual seria. Ele respondeu que existem muitas atitudes egocêntricas. É tudo sobre mim, eu, eu e eu, o que gera uma enorme ansiedade. E o antídoto para isso é o altruísmo. Eu soube que, em 2017, você e sua esposa decidiram doar metade do seu patrimônio pessoal ao Giving Pledge, movimento organizado por Melinda e Bill Gates que reúne filantropos bilionários do mundo inteiro. O altruísmo é algo com o qual nascemos ou podemos fazê-lo se desenvolver dentro de nós durante a vida? E por que você se juntou a este movimento?

NN – Minha esposa e eu crescemos em famílias de classe média. Fomos para a faculdade e tudo isso. Mas não nascemos ricos. E, como tive a oportunidade de fundar uma empresa líder em tecnologia, acabei ganhando bastante dinheiro. Sempre acreditei que não devemos guardar esse patrimônio para nós ou nossos filhos, mas sim usá-lo para um propósito mais amplo — e fazer isso no início de nossas vidas. Não deve ser algo em nosso testamento. Devemos aproveitar a riqueza em vida para fazer a diferença. Essa tem sido a nossa filosofia. Se você é um empresário de primeira geração, é mais provável que faça filantropia, pois não nasceu rico. Você começou com uma quantidade de dinheiro modesta e, portanto, está mais inclinado a doá-lo. Se você é rico de uma terceira ou quarta gerações, é mais difícil doar, porque seus filhos vão dizer: “Quem é você para doar, uma vez que você mesmo não ganhou esse dinheiro?”.

LH – Em países como o Brasil e a Índia, eu vejo a educação como a ferramenta mais poderosa para gerar oportunidades e mobilidade social. No Brasil, cerca de 90% das escolas públicas não estão conectadas. Nosso sistema de ensino público ainda é muito analógico. Mesmo com toda a desfuncionalidade atual do Ministério da Educação, estamos vendo um esforço hercúleo de boa parte das redes municipais e estaduais, tentando, mesmo sem as condições ideais, manter os alunos estudando por meio de aulas digitais, aulas pela TV e apostilas. Mérito dos gestores e professores. No Brasil, em contrapartida, temos mais telefones celulares ativos do que cidadãos. Pode-se concluir que somos um país com estudantes digitalizados, mas com um sistema público de ensino ainda analógico. Qual sua visão sobre esta dissonância digital entre cidadão e Estado?

NN – Não há dúvida de que em países como Brasil e Índia, a divisão digital é algo muito real. Quando projetamos nosso sistema de pagamento, fizemos de uma maneira que todos pudessem participar. Cidadãos conectados podem usar um aplicativo, e os que não têm telefones, e na Índia eles são centenas de milhões, podem ir a um representante bancário e usar seu número Aadhaar.

Do ponto de vista da inclusão, cerca de cinco anos atrás minha esposa e eu decidimos nos dedicar em como abordar o aprendizado em grande escala. A partir daí, construímos uma plataforma de tecnologia chamada Sunbird. Ela é uma plataforma de código aberto e já foi incorporada a um programa nacional indiano chamado D Sharp, que está sendo implementado em todo o país. E isso será muito útil no mundo de hoje, no qual existe uma enorme quantidade de crianças que não podem ir à escola.

Neste momento as escolas indianas estão oficialmente fechadas. O desafio será reabrir em um mês ou dois. Mas, por enquanto, muitas dessas ferramentas estão se tornando úteis. Basicamente o que fizemos foi criar uma maneira de conectar o aprendizado digital ao aprendizado físico. Fazemos isso com os livros didáticos, que tem os códigos QR para os tópicos. Digamos que nosso livro seja sobre ciência e que exista um capítulo do sistema solar, haverá um código QR no livro que, se você apontar o telefone para ele, ele exibirá conteúdo. Isso conecta o mundo físico do livro, o qual todos estão familiarizados, com o mundo digital. Usando essa tecnologia, fomos capazes de transmitir aprendizado para as casas. Podemos, por exemplo, enviar um código QR para os pais apontando os próximos tópicos das aulas. A ideia é criar um método híbrido de aprendizagem, utilizando o aprendizado remoto.

LH – Gosto muito da expressão em inglês “leapfrog”, que em português seria algo como “atalhos”. E, quanto mais aprofundo o meu interesse pelo modelos possíveis de governos digitais, mais seguro eu fico que, para muitos dos enormes atrasos e ineficiências que enfrentamos no Brasil, sobretudo nas áreas que entendo que o Estado deveria ser atuante e eficiente, como educação, saúde, segurança pública e gestão, a tecnologia deveria ser a maior aliada. Em 2009, você iniciou essa transformação digital da Índia criando o Aadhaar, mas agora essa tecnologia se espalhou por toda a sociedade…

NN – É importante salientar que eu não sou a única pessoa responsável por isso. Há muitas pessoas na Índia que acreditam nisso. Mas nossa filosofia geral é que a tecnologia pode ser usada pelos países em desenvolvimento para superar as suas dificuldades, porque na verdade temos uma vantagem em não possuir tecnologia. Vejo a falta de tecnologia nos países em desenvolvimento não como um problema, mas como uma oportunidade para construirmos as abordagens mais modernas e darmos um salto à frente de países desenvolvidos. Acredito muito nisso, e o trabalho que eu muitas outras pessoas fazemos é aplicarmos essas tecnologias à educação, à saúde, aos serviços financeiros. Essa é uma chave para transformar o tipo de desigualdade que vemos no Brasil e na Índia.

LH – Quando você fala sobre dados — e isso é outro tópico que surgiu durante essa pandemia —, os direitos individuais versus saúde, este será um dos maiores debates do mundo. Medir e rastrear cada indivíduo diante de uma epidemia se mostra necessário, mas também pode ser usado pelos governos para controlar as pessoas. Vemos agora que até os países democráticos estão instituindo, construindo esses sistemas de vigilância que provavelmente continuarão após o término desta crise. É muito fácil colocá-los, mas é muito difícil tirá-los, e a autoridade dessa vigilância não deveria ser dada às forças de segurança, como a polícia ou o exército, porque essa autoridade pode ganhar um viés invasivo. Em vez disso, deveria estar nas mãos de algum tipo de autoridade sanitária. Como você enxerga esta questão em relação à vigilância?

NN – Esse é um ponto muito importante, Luciano, porque a natureza dessa pandemia nos levou à necessidade de saber quem está infectado ou não. De repente, temos que saber como está a saúde do outro, e isso por si só é uma invasão completa do que pensamos como privacidade. Neste momento, todas ferramentas construídas, seja de rastreamento de contato ou qualquer outra, são, como você disse, invasivas. Acredito que todas as sociedades terão que se precaver contra isso e garantir que devemos manter essas medidas extraordinárias por causa da pandemia, mas, uma vez que as coisas voltem ao normal, devemos ter uma cláusula de caducidade sobre essas tecnologias para que elas não perdurem para diferentes fins de vigilância. Eu acho que isso é muito, muito importante e absolutamente necessário em todos os lugares.

LH – Eu realmente acredito que seu conhecimento e sua experiência podem nos ajudar muito no Brasil. Em países como o Brasil e a Índia, com grandes populações e enormes desigualdades sociais, mesmo unindo todos os filantropos não seremos capazes de combater a desigualdade com a eficiência e a escala necessárias. A filantropia é importante, mas quem tem poder exponencial em países como os nossos é o Estado, e este é gerenciado pela política. Logo, se você deseja realmente mudar países como o Brasil, precisamos qualificar o ambiente político com lideranças democráticas mais preparadas, solidárias e que compartilhem os valores do povo brasileiro. No Brasil, tentamos contribuir por meio dos movimentos cívicos de renovação política, mas você foi além. Você é um empreendedor de muito sucesso que decidiu servir seu país dentro de um governo por um período de tempo e deixou um enorme legado. E, então, para encerrar: como foi sua decisão para você sair do mundo corporativo e entrar no governo para tentar contribuir com o país?

NN – Se eu soubesse o quão difícil seria, eu nunca teria tomado essa decisão. Só descobri depois que entrei. Mas você está certo. Foi uma decisão realmente grande. Eu estava saindo de uma empresa que havia fundado e em que havia trabalhado por 30 anos. Tive que me mudar de Bangalore e ir para Delhi, que é a capital. Tive que sair de uma empresa onde estava na liderança de 100 mil pessoas, para começar a fazer uma startup dentro do governo. Foi um desafio muito difícil de várias maneiras, e não era um projeto fácil. Tive que superar muitos obstáculos políticos e burocráticos para fazer isso. Hoje, porém, tenho um profundo sentimento de satisfação, de uma decisão tomada no momento certo em minha carreira, quando pude aplicar parte de minha capacidade e conhecimento para fazer a diferença para um bilhão de pessoas. Definitivamente, existe um esforço de alto risco, mas vale a pena. E me sinto muito abençoado por ter tido a oportunidade. Continuo acreditando firmemente que o avanço global da tecnologia é a única maneira de resolver os desafios do mundo.

LH – Nandan, não posso agradecer o suficiente. É um prazer e uma honra poder compartilhar ideias com você. Eu realmente acredito que suas ideias podem nos ajudar no Brasil no momento atual e o que temos pela frente. Espero vê-lo por aqui quando for possível.