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"Se você quer se tornar um bilionário, ajude um bilhão de pessoas. Eu acho que são mindsets que podem impulsionar o mundo."

Peter Diamandis, geneticista, autor e fundador da Singularity University, nomeado pela revista Fortune um dos 50 líderes mais importantes do planeta.

SÃO PAULO - SET 2020

Tite acertava os ponteiros da nossa seleção, alimentando o sonho da conquista do hexacampeonato de futebol. Eu e a equipe de criação do Caldeirão discutíamos qual seria a nossa abordagem e como, dali a alguns meses, em 2018, iríamos cobrir um dos maiores eventos esportivos do mundo de um jeito diferente, com o nosso olhar. A “tormenta de ideias” mirava para todos os lados, mas nada de concreto. Eis que as fotos das populações indígenas da Amazônia registradas pelo genial Sebastião Salgado, que ornamentam a nossa sala de criação, nos abriram o caminho. Alguém se lembrou do livro Genesis, em que o fotógrafo documentou lugares e populações que em nada se alteraram nos últimos 50 mil anos. Isso mesmo, 50 mil anos. E entre as populações retratadas, estão os Nenets, um povo nômade, pastores de renas que vivem ao norte da Sibéria, na Peninsula de Yamal —que significa “Fim do Mundo”. Começamos a imaginar como em pleno século XXI, com toda a tecnologia embarcada no planeta, existiriam russos que não soubessem o que é futebol. E lá fomos nós para a “Peninsula do Fim do Mundo”, uma das regiões mais frias e inóspitas do planeta.

Foram dias de viagem. Milhares de quilômetros de avião até Salekhard, pequena cidade russa dentro do circulo polar ártico. Mais de 700 quilômetros dentro de um caminhão russo da década de 70 adaptado para trafegar no gelo. Na região, não existem estradas. A conexão entre os vilarejos se dá através de rios congelados. Os poucos veículos que ali trafegam rodam sobre as águas congeladas do Rio Ob. Do último vilarejo até o encontro com os Nenets, foram dois dias de ziguezague nas profundezas da Sibéria. Mas, finalmente, lá estavam eles. Frente a frente. Nossa ideia inicial havia se materializado: encontramos os russos que, em pleno século XXI, imaginávamos não saber o que é o futebol.

Doce ilusão. Estela, 9 anos, pele branca como a neve, olhos claros como o azul do céu siberiano, veio curiosa nos receber. Aproximou-se, sorriu para os forasteiros e sacou um celular —isso mesmo, um smartphone, ultramoderno, 4G, tela full, rosa, fabricado na Índia— para registrar uma foto dos estranhos invasores. Sim, até os povos Nenets estão conectados.
Pois minha conversa de hoje é com uma das mentes mais conectadas do planeta: Peter Diamandis. Geneticista formado pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), fundador executivo da Singularity University e autor de inúmeros best sellers, como o livro Abundância – O futuro é melhor do que você imagina, ele recentemente foi nomeado pela revista Fortune como um dos “50 maiores líderes do mundo”. Diamandis também atua como presidente executivo da X Prize Foundation, instituição que neste ano anunciou o Rainforest XPrize, um chamado para inovadores do mundo inteiro se engajarem em soluções radicais para mapear a biodiversidade da Amazônia e demais floresta tropicais. São US$ 10 milhões para premiar as ideias com mais potencial para revolucionar a conservação de florestas.

Há décadas Peter vem dialogando e iluminando o caminho sobre o impacto da tecnologia em nosso dia-a-dia —e alertando com estridência para as transformações ainda mais radicais que estão por vir. Da inteligência artificial à exploração espacial, da educação de altíssima qualidade à transformação digital das maiores corporações globais, suas ideias são ouvidas com atenção.

Nesta série de conversas publicadas pelo Estadão ao longo da pandemia, tenho me proposto a buscar ideias e reflexões de pensadores de vanguarda, que possam discutir de maneira propositiva o mundo pós-Covid 19. Nomes como os dos filósofos Yuval Harari e Michael Sandel, da Nobel de economia Esther Duflo, do articulista Thomas Friedman e do filantropo indiano Nandan Nilekani. Já tratamos de temas diversos, de renda básica universal a cadastro digital único, de política não-binária à programas solidários. Temas que iluminam, ou deveriam iluminar, o desenho de políticas públicas e a conduta de quem hoje cuida delas.

Hoje é a vez da conversa com Peter Diamandis sobre a revolução das tecnologias exponenciais e da inteligência artificial, uma revolução que ganhou enorme propulsão com a pandemia e que deveria preocupar e inspirar o Brasil —e a todos nós, brasileiros, que convivemos em um país de tantas desigualdades. Um diagnostico que pode soar impessoal, onde as pessoas estariam perdendo espaço para os bits and bytes, mas realista e necessário.

LH – O futuro é mais rápido do que você imagina. Excelente para abrir nossa conversa, essa frase é o nome do seu último livro, que, vale frisar, foi publicado em janeiro, antes da pandemia do coronavírus. Nesse livro, você traça um mapa de para onde o mundo está caminhando nesta década. Se fosse fazer uma reedição pós-pandemia, que capítulos deveriam ser reescritos ou incluídos?

PD – A pandemia adiantou tudo em três ou quatro anos. No livro eu discuti o futuro da assistência médica, o futuro do transporte, o futuro do comércio de varejo, o futuro do setor imobiliário… e as projeções para daqui a cinco ou dez anos estão acontecendo agora. Tudo se transformou, tudo se tornou digital. Há 20 anos eu chamo atenção para a iminência e importância da tecnologia exponencial, e aí veio o vírus e ensinou crescimento exponencial em três meses. É insano. A velocidade na qual as coisas estão se acelerando também se acelerou. A quantidade de coisas que você consegue fazer em um dia explodiu. De certa maneira, é fantástico. Agora estamos todos vivendo essa realidade exponencial.

LH – É incrível como todas as tendências e assuntos de que você resolve tratar acabam se impondo, se materializando. Anos atrás, a gente conversou sobre abundância, um tema que continua atual. Não é difícil argumentar que a vida melhorou de maneira geral para a humanidade nos últimos séculos. Em 1820, 84% da população mundial vivia na pobreza. Em 1981, eram 44%. Atualmente são menos de 10%. Na Holanda, uma pessoa morando em situação de rua e que recebe assistência pública dispõe de mais renda do que um holandês médio na década de 50. Por outro lado, vivemos desigualdades abissais. Em pleno século XXI, 30 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada, e 100 milhões não têm acesso à coleta de esgoto. Como você enxerga um mundo de abundância que não endereça as desigualdades e a falta de oportunidades?

PD – Todo mundo fala sobre a desigualdade econômica. E é verdade que a diferença entre os ricos e os pobres está cada vez maior. Mas eu gostaria de olhar para isso por outro prisma. Eu prefiro falar de como e até onde nós podemos melhorar a vida do bilhão de pessoas mais pobres do planeta. Se olharmos para 100 mil anos atrás, ou 10 mil anos, mil anos, ou até 200 anos atrás, o mundo podia ser descrito como o rei, a rainha e todo o resto, o faraó e todo o resto e assim por diante. Eram os poucos que tinham e os muitos que não tinham. E o que tem acontecido nos últimos 200 anos é que estamos indo desse mundo dos que têm e dos que não têm para o mundo dos que têm e dos que têm demais. Em outras palavras, nós estamos subindo a base da pirâmide.

Tomemos a energia do sol como exemplo. Nós temos o potencial de, nos próximos 20 ou 10 anos, captar e fornecer toda a energia de que precisamos. E os países mais pobres são justamente os países mais ensolarados. Um dos prêmios da XPrize Foundation, há um ano e meio, foi o da abundância da água. E era um prêmio que desafiava os concorrentes a tirarem a água da atmosfera para fornecer água potável. Nós vivemos num planeta em que dois terços são cobertos de água, mas 97% dessa área é de água salgada e 2% são as calotas polares. Ou seja, nós lutamos por menos de 1% nos rios e lagos. Mas a verdade é que existe água limpa e potável na atmosfera, e nós temos a capacidade de pegar essa água e fornecê-la a um custo muito baixo. Em resumo, ainda estamos focados em elevar os padrões, os patamares. E eu acredito que estamos na direção de um mundo onde podemos suprir as necessidades de cada homem, mulher e criança. É difícil lembrar o quão longe chegamos, mas nós estamos, sim, indo para a frente. É por isso que eu trabalho, é por isso que a Singularity University trabalha, e eu sei que é por isso que você se importa.

LH – Você criou uma faculdade para pensar e repensar o futuro. Tem incentivado e desafiado estudantes, empreendedores e intelectuais a projetarem o amanhã em várias frentes, sempre dando protagonismo à ciência. E, como conselho ajuda, mas o exemplo arrasta, você próprio tem investido em empresas que têm a pesquisa e a ciência como foco. Pelo que li na imprensa internacional nas últimas semanas, uma dessas empresas anunciou avanços no desenvolvimento de uma vacina contra a Covid-19 . No Brasil, muitos ainda infelizmente desprezam e desvalorizam a ciência. Então eu te peço que fale sobre a importância da pesquisa científica para a humanidade.

PD – Nós costumamos nos esquecer do quanto avançamos. Há 50 ou 100 anos, a vida era mais curta, mais difícil, as jornadas de trabalho eram de sete dias por semana, dez ou doze horas por dia. Vivíamos no mundo da sobrevivência, era literalmente sobreviver: você se preocupava com o lugar onde moraria no dia seguinte, em onde levaria seu filho ou sua filha doentes, em onde conseguiria remédios. Sim, muita gente ainda vive desse jeito, mas a maior parte das pessoas saiu desse patamar. Tudo isso graças à ciência e à tecnologia. Às vezes, assumimos que muitas coisas sempre estiveram aí. Poder pesquisar na internet e descobrir qualquer coisa na hora em que quiser? Ter mapas que te mostram o caminho instantaneamente? Ora, anos atrás nós tínhamos esses grandes papéis em que você desenhava linhas enquanto dirigia para algum lugar!

Se ainda temos dificuldades e desafios de todos os tipos no mundo, a nossa capacidade de focar e resolver esses problemas se tornou mais rápida do que nunca. A pandemia chegou nos primeiros dias de janeiro, começou a se tornar pública em fevereiro, e em março nós acordamos, vimos que ela era real e que ia começar a afetar a economia. E, pela primeira vez na história da humanidade, o mundo inteiro focou nesse inimigo. Não importa onde você mora, a conversa na mesa de jantar, nas reuniões, nos círculos políticos, era tudo sobre esse único inimigo. Você sabe, Luciano, que eu falo dos exponenciais que começam quando você digitaliza algo, de uma resposta de início decepcionante que subitamente se torna disruptiva. Então, no começo, nossa reação à pandemia foi naturalmente muito lenta. Vamos ter os ventiladores pulmonares? Vamos ter as máscaras? Vamos ter vacinas? Vamos ter um tratamento? Todo mundo se perguntava onde estavam essas coisas. Nós não tínhamos nada. Mas os empreendedores responderam a isso. De repente, por exemplo, nós tínhamos muitas máscaras de vários tipos sendo produzidas ao redor do mundo. Em março, eu me encontrei com um grupo de colegas brilhantes do setor de medicamentos, da biomedicina e da biotecnologia, e nós dissemos que precisaríamos de uma vacina. E nesse período a empresa em que eu decidi investir, a Covaxx, desenvolveu 30 vacinas paralelamente. E nós já selecionamos a principal candidata. É impressionante como o mundo mergulhou e começou a inovar.

LH – Você pode falar um pouco sobre essa vacina?

PD – São cinco aspectos necessários para uma vacina funcionar. O primeiro é que ela tem que estimular o seu sistema imunológico a gerar uma contagem muito grande de anticorpos. Vamos começar os testes com humanos em agosto, mas os estudos pré-clínicos mostraram que a nossa vacina foi além de qualquer outra e produz anticorpos no nível mais alto. O segundo aspecto é que esses anticorpos têm que neutralizar o vírus. Então nós pegamos esses anticorpos, fomos até laboratórios na China e em Taiwan e testamos esses anticorpos contra vírus vivos de humanos. Nossa contagem de anticorpos neutralizantes foi de 32.000. Para te dar um exemplo, a AstraZeneca chegou em 40, a Moderna, em 6.000 ou 7.000. São duas ordens de grandeza mais alta. O terceiro ponto é que a vacina funcione nos mais velhos, os principais afetados pela doença. A plataforma que estamos usando é capaz de gerar uma contagem de anticorpos super alta em idosos e demonstrou ser segura para humanos, o que é fundamental. A vacina também precisa ser fabricável, não adianta ter uma vacina se ela não pode ser produzida em grande escala. Nessa plataforma que usamos, já produzimos 5 bilhões de doses. Uma outra coisa, ela não usa nenhum vírus vivo na sua produção, nenhum vírus atenuado. É uma vacina de um peptídeo sintético. Estamos muito animados.

LH – E vocês estão testando no Brasil também? O Brasil vai conseguir essa vacina? E qual o tempo que falta para isso?

PD – Nós estamos testando em humanos paralelamente em Taiwan e nos EUA. Nós estamos alguns meses atrás das outras vacinas no calendário, mas espero que as alcancemos logo. Estamos conversando com algumas grandes empresas no Brasil para realizar os testes da segunda e terceira fases aí. Estamos indo nos países onde a pandemia está pior, no Brasil, na Índia, nos EUA. Nós esperamos levar a vacina para o Brasil. Estamos nos programando para ter 100 milhões de doses no começo de 2021 e 1 bilhão de doses no fim desse ano. Uma das questões é a de quem deverá ter acesso primeiro a essas vacinas. Essa é uma grande questão ética. Nós juntamos um grupo de consultores, composto de eticistas, economistas e virologistas, para conversarmos sobre onde distribuí-las.

LH – Esse é um grande desafio, porque você entra no campo da ética, de quem merece ter e quem não merece.

PD – Com certeza. Porque você pode usar essas vacinas em lugares de grande contaminação pelo vírus ou você pode tentar eliminar o vírus de uma área específica e depois começar a expandir. E, olha, nós falamos disso, a Covid-19, por pior que seja, eu penso nela como uma pandemia-teste. E por quê? Por causa da taxa de mortalidade, entre 1% e 2%, e não de 10%, de 20%, de 30%. Podia ser pior.

LH – Mas pode chegar a ser pior no futuro. Nós temos que aprender algo com isso.

PD – E é por isso que as pessoas têm que acreditar na ciência. Conforme nós invadimos as florestas, conforme entramos na selva, conforme nos misturamos com os animais criando interações com eles, mais vírus passarão do mundo animal para o nosso mundo, onde não temos proteção nenhuma. E nós temos que criar essa capacidade científica e tecnológica de detectar os vírus bem no começo, sequenciar eles imediatamente, enviar essa sequência na velocidade da luz para laboratórios ao redor do mundo e começar a produzir vacinas na hora seguinte. É isso que a tecnologia exponencial pode fazer, esses são os tempos exponenciais que estamos vivendo.

LH – Tudo indica que a ciência será capaz de equacionar os impactos da Covid-19, graças a Deus. Mas existe uma outra “pandemia”, que, se de fato se manifestar, nem a ciência terá força e capacidade de endereçar, que é a “pandemia” da mudança climática. Isso me preocupa especialmente porque nenhum outro país tem as riquezas naturais e a vocação agrícola do Brasil. A meu ver, o lugar do Brasil no mundo deveria ser o de Potência Verde. Uma respeitada nação agroindustrial sustentável. Herdamos as maiores e melhores matrizes naturais do planeta, as mais equilibradas. Nenhum outro país pode oferecer uma produção de alimentos tão volumosa respeitando a gramática da sustentabilidade. Você acha que o mundo, governos e cidadãos irão levar mais a sério as ameaças ambientais pós-pandemia?

PD – Primeiramente, eu concordo que o Brasil tem uma oportunidade imensa. Historicamente, todo ano fazemos uma cúpula da singularidade, e nós trazemos parceiros do Brasil para falar de como a tecnologia exponencial pode ser aplicada aí. Aliás, o Brasil é o país mais sedento por ciência e tecnologia que eu já vi. Na Singularity University nós recebemos alunos do mundo todo, e o país que mais manda alunos para aprender sobre tecnologia exponencial não é o Canadá, não é um país europeu, não é a China: é o Brasil. Isso é ótimo, nós temos mais graduandos em singularidade brasileiros do que de qualquer outro lugar, exceto dos EUA. E eu acho, sim, que o Brasil tem uma oportunidade massiva nas áreas da alimentação, da energia e do meio ambiente. Ele tem a capacidade de se tornar o líder nessas áreas se quiser. Mas precisa sair do mundo antigo para o novo mundo. Nós estamos a 10 ou 20 anos de o petróleo ser uma coisa do passado. E todas as economias baseadas no petróleo têm que se dar conta de que o custo da energia solar está despencando, de que nós vamos chegar em menos de um centavo de dólar por kWh. Nós vamos ter energia estocada, o que é incrível, é só ver o que a Tesla está fazendo no mundo. E, enfim, vamos ver a economia verde das florestas tropicais e das costas do Brasil. Toda a diversidade biológica tem um valor imenso.

Se eu fosse cínico, eu diria que o mundo gerou essa pandemia para ajudar o meio ambiente, porque nós desaceleramos a economia, os aviões não estão voando, não estamos dirigindo carros e o meio ambiente está melhorando. Eu não acredito que vamos resolver os problemas do meio ambiente com decretos governamentais. Eu acho que nós vamos resolver os problemas do meio ambiente porque a tecnologia vai tornar isso mais barato, porque ela facilitou o uso de energia solar e de carros e veículos elétricos. Porque hoje eu uso a tecnologia assim, para me “transportar” até você instantaneamente, e poder conversar sem ter que entrar num avião. A tecnologia vai reduzir a pegada de carbono no planeta.

LH – Você pode falar um pouco sobre o Xprize, e especialmente sobre a Xprize Rainforest, com uma premiação de US$ 10 milhões para as melhores iniciativas?

PD – O prêmio desafia os participantes a calcularem o valor de uma floresta tropical pela sua biodiversidade. Se você tem um terreno que faz parte de uma floresta tropical, você pode medir o valor dele pela quantidade de madeira que você corta e pelo quanto você a vende. Você também pode calcular o valor pelo tanto que você planta nesse terreno. Mas, por outro lado, há muita biodiversidade lá que você nunca avaliou. E, quando você derruba a mata, você destrói essa biodiversidade sem perceber o valor daquilo que está destruindo. Então esse XPrize está pedindo às equipes que consigam calcular o valor de um acre ou de um hectare de terra em 24 horas pela quantidade de biodiversidade que existe ali. Porque você valoriza o que você consegue medir, e, no momento, nós não conseguimos medir essa riqueza. Essa é uma das principais iniciativas desse prêmio, e ela vai permitir que o Brasil, ou que uma pessoa que possua um terreno florestal, coloque esse valor financeiro nos seus registros. Isso vai mostrar que o terreno vale muito mais do que a madeira que se pode cortar nele, muito mais do que o milho que você pode plantar ali. Vai mostrar o quanto o terreno vale pela sua biodiversidade.

LH – Estima-se que hoje no mundo já existam algo como US$ 50 trilhões disponíveis para investimentos em economia limpa, provenientes de fundos de pensão que até ontem buscavam investimentos em campos de petróleo, redes de transmissão, rodovias e pólos petroquímicos. No pacote de EU$ 3 trilhões para recuperação econômica pós-pandemia, liderados principalmente pela Alemanha, os países da União Europeia deram muita importância ao tema. No Brasil, para atrair esse tipo de investimento, teremos de abrir um diálogo conciliador e criativo, com propósito, e abandonar dogmas econômicos do século passado. Como você enxerga essas novas oportunidades?

PD – A pandemia causou um grande impacto negativo na vida das pessoas, na capacidade de conseguirem empregos, na saúde… Mas ela conseguiu nos colocar na direção de um futuro mais sustentável e criou oportunidades gigantescas para empreendedores. Os grandes problemas do mundo são grandes oportunidades de negócio, e eu ensino que, se você quer se tornar um bilionário, ajude um bilhão de pessoas. Eu acho que são mindsets que podem impulsionar o mundo.

LH – A pandemia fez acelerar transformações que poderiam levar anos para se materializar. Decisões que poderiam levar uma década foram tomadas em semanas, para o bem e para o mal. Grandes corporações que nunca imaginaram que poderiam ser eficientes e produtivas com 100% dos seus colaboradores trabalhando à distância já adotaram para sempre esse novo modelo de trabalho. Como você enxerga essa mudança?

PD – As empresas descobriram que podem diminuir de tamanho e ser mais eficazes. Softwares e serviços de inteligência artificial realizam o trabalho antes feito por grandes grupos de pessoas. Por videoconferência, posso fazer reuniões todo dia ou três vezes por semana com minha equipe, e, para mim, não importa se o funcionário está na rua de baixo aqui em Los Angeles ou em São Paulo. Estamos trazendo algumas fábricas para perto, porque nos preocupamos com a disrupção de equipes de suporte, mas ao mesmo tempo estamos muito mais abertos a contratar alguém do outro lado do mundo se existirem boas conexões digitais. Eu posso contratar um cientista superinteligente, um empreendedor, não importa onde more, só precisa ser capaz de trabalhar com a minha equipe por meio das plataformas digitais. E de repente nós teremos empresas globalizadas e distribuídas pelo mundo com poucas pessoas. Por isso o aumento das taxas de desemprego será o desafio imediato. Nós precisamos reabilitar as pessoas que tinham empregos na economia do mundo antigo à economia do novo mundo.

LH – Mas como gerar comprometimento e engajamento se as relações de trabalho serão todas digitais? Eu entendo que, por um lado, nós vamos abrir, para ter mais pessoas espalhadas, mas estar junto é fundamental.

PD – Você me conhece, eu gosto de cumprimentar as pessoas com um grande abraço. Mas eu tenho funcionários em minhas empresas que eu nunca encontrei. São funcionários digitais, sob demanda. São o coletivo da colaboração coletiva. Existe a importância de colocar todo mundo junto uma vez a cada três meses, de ter esse contato pessoal, porque nós somos humanos, nós temos uma conexão humana. Mas também é possível ter uma relação de trabalho digitalmente produtiva. A maioria das pessoas ainda não percebeu que a velocidade da inteligência artificial está se acelerando. E, enquanto pensamos que a inteligência artificial é legal nos nossos celulares, nas pesquisas do Google, nos aplicativos de cuidados com a saúde, nos videogames, nós não reparamos que estamos a 5 ou 10 anos de criar humanos virtuais com inteligência artificial. E eles serão inteligências artificiais que parecem com uma pessoa, que falam como uma pessoa com quem você pode conversar, você vai poder até construir uma relação com eles, e ainda assim serão completamente virtuais, eles não vão existir de verdade. Eles vão nos vender coisas, vão responder perguntas, e nós estamos indo rapidamente nessa direção.

LH – Mas quando você fala disso num país como o Brasil, onde as oportunidades não são iguais para todos, quando você fala de inteligências artificiais realizando trabalhos que as pessoas estão fazendo agora, se torna imperativo discutir a educação, porque nós precisamos preparar as pessoas para essa nova era. E isso só a educação é capaz de fazer. E, por falar em educação, essa foi uma questão delicada no Brasil durante a pandemia. A crise sanitária e suas consequências iluminaram as enormes desigualdades que vivemos por aqui. Uma delas, e das mais graves, foi a desigualdade educacional. Mesmo tendo mais chips ativos de celulares do que cidadãos, nosso sistema público de ensino é analógico. Alunos digitais em uma escola analógica. Das escolas públicas brasileiras, 90% estavam “desconectadas”. O que nos salvou em parte foi o trabalho hercúleo dos gestores locais e professores que começaram a improvisar como podiam para tentar manter seus alunos estudando à distância. Como você avalia as transformações na educação pós-Covid19?

PD – Tenho dois meninos de 9 anos, e Los Angeles está com as escolas fechadas. A pergunta é: o que vem em seguida? Porque, sinceramente, colocar eles em salas de aula com mais 30 alunos nos seus computadores ou nos seus tablets, e apenas um professor lidando com todos por meio de videoconferência, isso não funciona. Por outro lado, não vamos ter alunos em salas de aula agora. Mas existem grandes oportunidades que nos dão a chance de reinventar a educação. A educação não mudou em centenas de anos, ainda é uma sala com uma pessoa falando para 30 alunos, se você tiver sorte, ou para 100, se você não tiver. Metade das crianças estão perdidas, metade está entediada. É um processo ridículo. Temos que reinventar a educação.

A boa notícia é que a Covid-19 está nos forçando a reinventá-la. Milhares, talvez dezenas de milhares de empreendedores estão trabalhando nisso ao redor do mundo. Ela ainda não chegou, mas daqui a um ano, eu aposto que teremos opções educacionais.

A melhor educação do mundo, aquela voltada para os filhos e filhas dos bilionários, vai ser uma educação individual, com um professor incrível, superinteligente, que conhece o nível educacional daquela criança, conhece as habilidades dela com a língua, sabe a cor favorita dela, sabe qual é o astro esportivo preferido, o ator e a atriz preferidos, e que poderá dar a ela uma educação tão pessoal que a criança vai adorar, ela vai estar sempre envolvida em aprender. E, do outro lado, vai ser um professor tentando lidar com 30, 50, 100 crianças. Nós vamos entrar no mundo da inteligência artificial, no qual essa I.A. vai poder ser esse professor particular.

Existe um ótimo exemplo: o mundo dos videogames. Meus meninos de 9 anos são experts em todos os jogos de videogame. Eles os conhecem perfeitamente, são impelidos a jogar. No mundo da educação, você começa com uma nota 100, e, cada vez que você erra, a sua nota cai, é muito desmotivante. No mundo dos videogames, você começa no zero e, cada vez que você acerta, a sua nota sobe. É aprendizagem por reforço, você aprende todas as regras. Porque não podemos fazer a educação assim? Na China, eles têm esses aplicativos de aprendizagem. É um celular com uma câmera voltada para o rosto da criança: ela está vendo uma aula e respondendo às questões, e a câmera pode ver se a criança está entediada, se está perdida ou se está animada. E o aplicativo pode trocar de aula se perceber que a criança está com dificuldades pela sua expressão facial. É uma situação pessoal de um para um. Se a criança não está acompanhando, o aplicativo pode voltar e começar de novo, tentar uma nova abordagem do assunto. Agora, isso não vai substituir a empatia humana, a conexão e a bondade humanas, nem o aprendizado de como ser uma boa pessoa, de como amar as pessoas e ser gentil e tudo mais. Mas é um jeito de personalizar a educação —e o custo disso é o gasto com eletricidade, com os celulares, cujo preço despencou, com a banda larga, que aliás vai se tornar gratuita. Nós estamos indo em direção a um outro mundo. A educação vai se tornar cada vez melhor, cada vez mais barata e disponível para mais pessoas. E o mesmo vai acontecer com a assistência médica.Para mim, as duas grandes indústrias que têm que mudar, que têm que se transformar, e que serão completamente disruptivas, são a da educação e da assistência de saúde.

LH – Você é tratado pelas principais corporações mundiais como alguém capaz de iluminar caminhos e contribuir com as transformações necessárias para que as empresas se adaptem a este novo mundo, onde tudo é exponencial, onde a tecnologia cada vez mais estará presente no nosso dia-a-dia. Mas te faço uma provocação. Quando olhamos para o Estado, ele continua praticamente o mesmo das últimas décadas. Ainda é pesado, ineficiente e pouco produtivo. Realmente não se reinventou. Se você fosse contratado por um país para começar a prepará-lo para o futuro, por onde começaria?

PD – Primeiro, um país, assim como uma pessoa, assim como uma empresa, tem que ter uma missão e um propósito. Você precisa estar certo do que você é. Você precisa ter uma marca do seu país, algo que diga, é isso que nós somos e é por isso que nós trabalhamos no mundo. Para o Brasil, poderia muito bem ser sobre a economia verde, sobre alimentação para o mundo, sobre energia para o mundo. Pode ser qualquer uma dessas três, ou todas essas três, mas é preciso escolher algo para que o mundo te conheça por isso —e trabalhe nisso com você. Então, ter um grande propósito transformador como uma nação, algo que una a nação, é importante. A partir disso, você pode construir a camada educacional que vai trazer a melhor ciência, as melhores possibilidades de alcançar esse propósito. Você pode pensar nos EUA de algumas maneiras, mas o programa Apollo foi, para os EUA e para a União Soviética, um dos grandes eventos, todos aqueles engenheiros espaciais e etc, e agora temos o Vale do Silício na área de computadores e de softwares. E, quando você tem uma visão clara de quem você é como nação, os grandes empreendedores do mundo vêm até você. Quando você cria os suportes financeiros e legais, você constrói a base nas quais as grandes empresas podem crescer e se desenvolver para trabalhar para o mundo e não só para um país. É nisso que eu focaria em um país: quem somos nós, qual o nosso propósito, nossa visão, nossa missão no mundo. Quando o mundo pensa no Brasil, não só nas praias de lá, do que o mundo deveria lembrar? E como nós devemos educar a população para que ela seja realmente extraordinária nessa área? Como eliminamos nossas perdas para nos tornamos mais liberais nesta área? Como trazemos o capital de investimento para que possamos florescer em um nível global nessa área?

LH – Enquanto você falava, eu lembrei de um TED Talk em que você fala sobre o alumínio na época de Napoleão. Você poderia relembrar a história, e para você, o que seria o alumínio nos dias de hoje?

PD – Bom, nós nos esquecemos do mundo de abundância em que vivemos. Se você voltar centenas de anos, o metal mais caro do mundo não era o ouro, não era a prata. Era o alumínio. E isso é estranho. Hoje nós vemos o alumínio como uma tecnologia descartável. É um dos metais mais abundantes na crosta da Terra, mas todo o alumínio está ligado a oxigênio e silicatos nessa substância marrom chamada bauxita. E era tão caro extrair o alumínio puro da bauxita que ele valia mais do que ouro e prata. Os reis e rainhas mais ricos tinham pratos de alumínio em que serviam os convidados reais. E a ponta do Monumento de Washington, em Washington D.C., a ponta do obelisco construído na década de 1840 não é de ouro, mas de alumínio. Um dia, nós descobrimos uma tecnologia chamada eletrólise, que usa eletricidade para extrair o alumínio da bauxita. E ela é tão eficiente, tão barata, que nós passamos a ter uma abundância de alumínio.

O que está acontecendo agora é que a tecnologia pega tudo que é escasso e transforma em abundante.

Tome o caso da energia. A energia costumava ser bastante escassa. Nós caçávamos baleias para usar o óleo delas para iluminar a noite. Depois nós vasculhávamos montanhas para conseguir carvão. Nós cavamos quilômetros no chão e quilômetros para dentro dos oceanos para conseguir petróleo. Mas agora nós vivemos num mundo que consegue uma abundância de energia limpa. O mesmo acontecerá na educação e na assistência de saúde. Vai ser o mundo dos sensores, da inteligência artificial e das redes. Esse mundo está chegando. Tudo isso tem a ver com a ciência e a tecnologia. Se fosse para eu dizer uma coisa para inspirar os empreendedores do Brasil, encontre um problema que você ama, que você quer resolver, porque, quando você o resolve, você não gera riqueza só para você, isso levanta a população do Brasil e de todo o mundo.

LH – Enquanto grande parte dos jovens ocidentais cresceu numa era de tecnocracia apolítica, nossa geração, se quiser de fato deixar um legado além dos nossos próprios bolsos, terá que considerar a política e encontrar uma nova utopia. Porque, a meu ver, só o Estado tem capacidade de gerar transformações exponenciais quando tratamos de bem-estar estar social. Considerando tudo que você está vendo, ouvindo, estudando e investindo, qual você acha que será nossa próxima utopia?

PD – Nossa próxima utopia vai ser a capacidade de separar o trabalho pelos ganhos financeiros e o trabalho pelo que você ama fazer. Estamos caminhando para um mundo no qual vamos desmonetizar o custo de vida. No qual carros elétricos autônomos vão ser muito mais baratos do que ter e dirigir um carro. No qual, em vez de só ter os helicópteros dos ricos voando pelos céus de São Paulo, veículos elétricos autônomos estarão ao alcance de todos, poupando o tempo de todos. Um mundo no qual o preço da alimentação vai diminuir, a energia será gratuita, um mundo no qual o preço da educação e da assistência de saúde, realizadas por inteligências artificiais e sensores, vai ficar cada vez mais baixo. E, finalmente, hoje, quando as pessoas trabalham para colocar comida na mesa das suas famílias ou porque elas precisam de um seguro de saúde, elas não escolhem seus empregos, é sempre a única opção, isso se elas tiverem a sorte de ter um emprego.

Então a utopia para a qual nós estamos indo é esse mundo onde eu trabalho com algo porque era o meu sonho de criança, e o custo de vida se tornou tão baixo que isso é possível. Nós pensamos que o socialismo é quando o governo está cuidando de você, mas imagine que você tem uma versão tecnológica disso, que a tecnologia está cuidando de você, não o Estado. É nesse caminho que estamos. Um mundo onde vamos melhorar a vida de todos os homens, mulheres e crianças, onde todos terão acesso às necessidades básicas de graça. Eu acho que isso é economicamente possível. E isso permitirá às pessoas sonharem, é disso que precisamos, que uma criança possa nascer na favela e saber que ela pode fazer qualquer coisa que quiser. Esse é o mundo possível para mim, essa é a próxima utopia.

LH – Muito obrigado, Peter. É sempre um grande prazer falar com você. Se a intenção era jogar luz no mundo pós-pandemia, hoje rolou.